O Caderno de Outono

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Ela atravessava o parque, de novo, já estava ficando muito enraizado esse hábito. Ela não sabe da onde este realmente veio, acho que era a vontade reprimida de fugir, uma ilusão de que tal desejo se esvaia nos passos sem direção.
Procurava um motivo para acalmar o coração, já estava começando a irritá-la na verdade, não a deixava um minuto quieta. Pegou uma pedra, jogou-a para longe. PÁ. Uma janela quebrada. “Corre”. Que coisa mais tonta, por que jogou a pedra? Tem coisas que não fazem mesmo sentido, fazemos apenas por fazer, porque podemos.
Ofegante, parou perto de um banco. Lá estava outra menina, rosto serio, de poucas amizades, mas olhava o céu mesmo assim. Sentou-se ao lado. “Oi”. “Sai”. PÁ. É, tem coisas que agente faz que realmente não fazem sentido, por exemplo, tentar puxar conversa com uma menina obviamente de mal-humor. Mais estanho é tentar de novo. “Oi”. “Sai”. CREQUE. Desta vez não sobrou nem o vidro da janela, estava completamente aberto. Melhor. O vento entra mais fácil. “Por quê?”. “Porque não quero conversar”. “Por que?”. “Porque não estou a fim de conversar”. “Por que?”. “Você está fazendo isso só para me irritar, né?”. “Sim”. Um sorriso.
“Afinal, o que você está vendo?”. “Um hipopotamo”. “Onde?”. “Naquela nuvem”. “Aquilo não é um hipopotamo, é uma flor”. “Como você viu uma flor?!”. “Como você viu um hipopotamo?”. “É obvio que é um hipopotamo”. “Não, é obvio que é uma nuvem”. “Vai embora. Me deixe ver meus hipopotamos”. “Que graça tem se você não puder ver as flores também?”. “A graça é que vejo o que quero”. “Entendo”. Ela não entendia. Silêncio.
“Então você não gosta de flores, é isso?”. “Vai embora!”.

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Sob incertezas trêmulas
Um olhar distante liga estrelas
Nas formas indecifráveis das luzes
Em seus sagitários e suas cruzes
.
O repercutir do coração ao ninho
Os passos dizendo que em ida
Qualquer caminho é descaminho
Cada qual um desando da vida
.
Então nada mais se espera
A voz embargada ainda se desespera
Dane-se, desande
Tenho um mundo ainda adiante
.
Assim adentra nas cortinas de neblina
Esperançoso pela doce indisciplina
A procura de uma esperança que grita
Abrigada no fundo de uma alma irrestrita

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Me desentendi com o mundo. Não queremos as mesmas coisas, ele não me ouve, não me compreende. Há de se procurar outros mundos, além deste, dentro de cada um, onde há algo para ser visto, algo para se ouvir, algo para compartilhar, para que assim meu mundo miúdo atinja seus mundos mudos, assim mudam, para além do mundano, fugindo do mero desencanto, atravessando o Universo.

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Espera a esperança
A esperança espera
Esperança à espera
À espera de esperança.

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Ele se move ao meu redor. Ele é o movimento. O Sol que atravessa o anil, a Lua que caminha o breu, a estrela que corre o celeste, o corpo que regressa ao chão, o cansar dos olhos, o balançar à cadeira, a contagem meticulosa.
Ele é o cantar uníssono, o andar impensado, a conquistada luta, a luta conquistada, a lembrança inesquecível, o sentimento vivido, os olhos que não se apagam, o sonho bom, o pesadelo que atormenta, os gritos de emoção, a valiosa conversa, o deixar para o momento, o momento para deixar, talvez para abraçar, para não partir.
O Tempo que se move ao meu redor é tirano, paciente, indiferente à articular as engrenagens de seu relógio em vão objetivo de apenas movê-los, ele é movimento apenas, sempre isso, apenas isso.
O Tempo dentro de mim é livre, é libertino, impaciente, vivo, atrapalhado às vezes, o momento que fica, momento que não se esvai, momento eterno, pois é movimento que ecoa minha existência e que voa para além, ele está em mim e não sou dele.

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Aos poucos seguimos em frente, às duras passadas, levamos o que é bom, tentamos permanecer inteiros.